Quando o tema é seguros, as dúvidas são muitas e as decisões têm impacto direto na tranquilidade de quem compra ou habita uma casa. Nesta conversa, Paula Moreira, diretora da PMR Imobiliária, recebe Nuno Faritas Lobo, diretor da DS Seguros Fundão, para esclarecer as dúvidas mais comuns sobre seguros ligados ao crédito habitação, imóveis e proteção pessoal. Com uma abordagem simples, direta e prática, falam sobre seguros obrigatórios, facultativos, exclusões, coberturas e cuidados a ter no momento da contratação. Uma conversa essencial para quem quer proteger o seu património e o que mais importa: a sua família.

Paula Moreira (PM): Obrigada Nuno, por estares hoje connosco aqui na PMR Imobiliária. O Nuno Lobo é o diretor da DS Seguros Fundão e vai estar comigo à conversa para falarmos sobre seguros. Muitos dos nossos clientes têm-nos colocado algumas questões, principalmente relacionadas com imóveis, e ninguém melhor do que o nosso parceiro de seguros, o Nuno Lobo, para nos aconselhar sobre esta área que é a sua especialidade.

Começamos por falar um pouco sobre quais são, na tua opinião, os seguros essenciais para estarmos mais tranquilos e protegidos no dia a dia.

Nuno Lobo (NL): De forma simples, há seguros obrigatórios por lei, como o seguro automóvel e, para quem trabalha por conta própria ou para empresas, o seguro de acidentes de trabalho. Depois, há seguros que, não sendo obrigatórios por lei, nos podem ser exigidos, como é o caso dos seguros associados ao crédito habitação: o seguro multirrisco e o seguro de vida. Para além destes, considero fundamentais três seguros de proteção pessoal: um seguro de vida com coberturas de invalidez e doenças graves, um seguro de saúde e um seguro de acidentes pessoais.

PM: Esse seguro de vida de que falas não é o mesmo do crédito habitação, pois não?

NL: Nada tem a ver. O seguro de vida da Previdência protege a pessoa e a sua família. Hoje em dia, não podemos pensar só na morte. Temos de considerar o que acontece se tivermos uma invalidez, causada por acidente ou doença, ou se nos for diagnosticada uma doença grave. Como nos tratamos? Como sobrevivemos? E mais: como vive a nossa família se deixarmos de poder trabalhar? Este tipo de proteção é cada vez mais essencial.

PM: Muitas vezes misturamos conceitos. Até eu, confesso, por vezes confundo o seguro de saúde com o seguro de vida.

NL: São completamente diferentes. O seguro de vida protege-nos em situações de morte, invalidez ou doença grave, e ajuda a garantir a estabilidade financeira da família. O seguro de saúde permite aceder mais rapidamente a cuidados médicos, diagnósticos e exames, algo muito relevante considerando as limitações atuais do SNS.

PM: Agora, entrando nos imóveis que foi o tema que deu origem a esta conversa muitos dos nossos clientes compram casa connosco, com ou sem crédito. No caso do crédito, o seguro multirrisco costuma ser mais facilmente compreendido. Mas, quando não há crédito, os clientes ficam surpreendidos quando recomendamos a contratação de um seguro. Afinal, é obrigatório ou não?

NL: O seguro multirrisco não é obrigatório por lei. Mas é praticamente indispensável quando há crédito habitação. O banco exige esse seguro para garantir que, em caso de sinistro, o imóvel é reposto ou recuperado. O seguro multirrisco protege a estrutura do imóvel e pode incluir também o recheio: móveis, eletrodomésticos, objetos pessoais.

PM: Muitas vezes dizemos ao cliente que o seguro é obrigatório, mas na verdade é uma exigência do banco e não da lei.

NL: Exato. Uma coisa é o que a lei exige, outra é o que o banco exige. E outra ainda é a ideia de que o seguro tem de ser feito com o banco, o que também não é verdade. O cliente pode contratar o seguro onde quiser, desde que cumpra os requisitos exigidos pelo banco.

PM: E o que devemos ter em conta ao contratar um seguro multirrisco?

NL: O barato sai caro. É preciso ter atenção às coberturas, aos capitais segurados, às franquias e exclusões. Deve-se sempre ouvir o aconselhamento de um profissional. O seguro multirrisco está longe de ser simples, e as pessoas só percebem isso quando precisam de acionar o seguro. E nessa altura, se não tiverem as coberturas certas, podem ficar muito prejudicadas.

PM: É comum ouvirmos clientes dizerem “não vale a pena falar com o seguro” ou “isso não compensa”. Mas temos visto situações em que o seguro funcionou muito bem.

NL: O seguro funciona. O que pode variar é a rapidez ou a qualidade do serviço. Algumas companhias são mais ágeis, outras mais lentas. E tudo depende também das informações prestadas no momento da contratação: estado do imóvel, localização, tipo de construção, etc. Tudo isso influencia o preço e as condições do seguro.

PM: Tivemos muitas questões de clientes logo após o sismo recente em Lisboa. Muitos perguntaram se tinham ou não cobertura sísmica.

NL: Essa cobertura vem especificada nas condições particulares do seguro. Mesmo que o seguro seja “sem franquia”, a cobertura de fenómenos sísmicos tem sempre uma franquia de 5%, que pode ir até 10% em algumas companhias, o que não aconselhamos. Se o cliente não tem essa cobertura, deve pedi-la imediatamente à companhia ou ao mediador.

PM: E como podemos confirmar se temos essa cobertura?

NL: Pedindo as condições particulares e, se possível, as condições gerais da apólice à seguradora ou ao mediador. Está tudo discriminado lá.

PM: Em relação aos incêndios, especialmente em zonas de risco, que cuidados devem ter os proprietários?

NL: Devem declarar corretamente se o imóvel está próximo de zonas florestais e manter a faixa de contenção limpa. Isto ajuda a garantir que, em caso de sinistro, o seguro cobre os danos. Algumas companhias até já agilizaram processos e pagam as indemnizações de forma rápida nestes casos.

PM: E quanto ao recheio? Muita gente não sabe que há itens que pertencem à estrutura do imóvel e não ao recheio.

NL: É verdade. Eletrodomésticos encastrados, ar condicionado, bombas de calor, cilindros, até televisores fixos à parede, tudo isso é considerado parte do imóvel. Por isso, quando se contrata o seguro, deve-se verificar o capital de riscos elétricos, porque 2.500€ ou 5.000€ podem não ser suficientes.

PM: Há situações muito dramáticas, como casas totalmente destruídas por incêndios. Ninguém pensa em guardar faturas fora de casa ou ter fotografias dos bens.

NL: Mas é importante. As faturas devem estar digitalizadas e guardadas numa cloud. E é útil fotografar objetos de valor, como peças de ouro, prata ou relógios. Isso ajuda em casos de roubo ou furto ou mesmo em catástrofes.

PM: Mas, nestas situações mais graves, as companhias exigem essas provas?

NL: Normalmente não, porque o contexto é dramático. As companhias querem agilizar o processo e ajudar as famílias o mais rapidamente possível.

PM: Outra dúvida comum: posso fazer o seguro de vida fora do banco? E compensa?

NL: Pode e, em muitos casos, compensa muito. O seguro feito fora do banco pode ser até 60% mais barato. Mesmo que o banco aumente ligeiramente a prestação do crédito, a poupança no seguro compensa. E mais: fora do banco é possível ter melhores coberturas e menos exclusões.

PM: Como por exemplo?

NL: A principal diferença está no tipo de invalidez coberta. Os seguros do banco costumam cobrir apenas IAD (invalidez absoluta e definitiva), que é o chamado “estado vegetativo”. Já os seguros contratados fora do banco permitem ITP (invalidez total e permanente), a partir de 60%. E isso é muito relevante, porque muitas das doenças mais incapacitantes em Portugal como AVC, enfarte ou cancro causam invalidez de 60% a 65%. Com ITP, o seguro cobre. Com IAD, não.

PM: E quanto às exclusões?

NL: Profissões como bombeiros, camionistas ou trabalhadores da construção civil podem estar excluídas dos seguros feitos com os bancos. Já tivemos casos de exclusões por pandemia, por exemplo. Por isso é fundamental ler as condições gerais e particulares da apólice.

PM: Se não tivermos esses documentos, é fácil pedi-los?

NL: Sim, basta contactar a companhia ou o banco e pedir.

PM: Outra questão: à medida que vamos pagando o crédito, o seguro também vai diminuindo?

NL: Na maioria das companhias, sim. O valor do seguro ajusta-se à dívida em aberto. Mas a idade do segurado também influencia: quanto mais idade, maior o prémio. É importante pedir um plano de pagamentos no início para saber quanto se vai pagar ao longo do tempo.

PM: E é possível mudar de seguradora mesmo estando fora do banco?

NL: Sim, é bastante comum e aconselhável rever o seguro de 2 em 2 anos. Desde que o cliente esteja saudável, sem doenças pré-existentes, pode e deve mudar. O mercado está em constante atualização e as companhias querem captar novos clientes.

PM: E o que acontece se tiver uma doença como a diabetes?

NL: Pode ser aceite com agravamento ou sem exclusão, desde que esteja controlada. É caso a caso. E é melhor ter alguma cobertura do que nenhuma.

PM: Os seguros de vida e multirriscos dão para deduzir no IRS?

NL: Não. Só os seguros de saúde. Mas, em caso de arrendamento, pode haver deduções enquanto despesa, tal como o condomínio, devem confirmar com um contabilista.

PM: Por fim, e os condomínios? O seguro da fração cobre as partes comuns?

NL: Não. Deve haver um seguro específico para as partes comuns. Em prédios novos ou em condomínios bem geridos, há uma apólice para as partes comuns e outra para o recheio de cada fração. O condomínio é responsável pelo seguro das partes comuns e esse custo é repartido pelos condóminos.

PM: E há mais alguma curiosidade que queiras partilhar?

NL: Sim. Muitos seguros multirriscos incluem cobertura de responsabilidade civil familiar. Por exemplo, se um filho partir os óculos de um colega na escola ou num parque, o seguro pode cobrir. Não é só dentro de casa. É uma proteção extra muito útil e pouco conhecida.

PM: Muito bom saber isso! Com três filhos, esta informação dá jeito. Muito obrigada, Nuno.

NL: Obrigado Paula.

PM: Foi um prazer e tenho a certeza de que esta conversa vai ajudar muitos dos nossos clientes.