Por Paula Martins, Gestora Processual na PMR Imobiliária

Faltam menos de cinco meses para terminar o prazo da Garantia Pública no crédito à habitação para jovens. Apesar de esta ser uma medida dirigida a compradores até aos 35 anos, há uma pergunta que os proprietários que ponderam vender casa também deveriam fazer: será este um momento particularmente interessante para colocar um imóvel no mercado?


Enquanto diretora processual da PMR Imobiliária, acompanhando de perto os processos de compra e venda, acredito que sim, sobretudo quando falamos de imóveis que se enquadram no tipo de procura gerada por esta medida. A Garantia do Estado aumentou o valor dos imóveis no mercado, consequência natural da maior procura, e o seu fim pode levar a um abrandamento.


A Garantia do Estado veio permitir que muitos jovens com rendimentos para suportar uma prestação, mas sem poupanças suficientes para dar uma entrada significativa, pudessem avançar para a compra da primeira habitação própria permanente.


Atualmente, o regime permite às instituições financeiras conceder financiamento entre 85% e 100% do valor da transação do imóvel. O imóvel não pode ultrapassar os 450.000 euros e o comprador terá de cumprir os restantes critérios de elegibilidade e de risco definidos pela instituição financeira.


Isto não significa que o Estado compre a casa ou que qualquer jovem consiga automaticamente um financiamento a 100%. A decisão continua a depender da análise feita pelo banco.


Mas significa que foi removida uma das principais barreiras que impedia muitos jovens de chegar ao mercado: a necessidade de ter disponível uma entrada inicial elevada.


Para quem está a pensar vender uma casa, este é o ponto que considero mais relevante.


Em 2025 foram celebrados mais de 25 mil contratos de crédito à habitação própria e permanente através da Garantia Pública. Estes contratos representaram 42% dos contratos de crédito habitação celebrados por jovens até aos 35 anos nesse ano.


São números que mostram que não estamos perante uma medida residual.


Existe hoje um conjunto significativo de potenciais compradores que provavelmente teria mais dificuldade em entrar no mercado sem este mecanismo.


E quando aumenta o universo de pessoas com capacidade para comprar, também se criam novas oportunidades para quem pretende vender.


Isto é especialmente relevante para proprietários de imóveis que, pelas suas características, localização e valor, podem encaixar na procura de jovens que estão a comprar a primeira casa.


À data deste artigo, a legislação determina que os contratos de crédito abrangidos pela Garantia Pública têm de ser celebrados até 31 de dezembro de 2026.


A medida poderá naturalmente vir a ser prolongada ou alterada. Mas enquanto não existir uma renovação, uma vez que não temos ainda sinais que venha a existir, é com este prazo que compradores e proprietários devem trabalhar.


E há uma diferença importante entre decidir comprar uma casa e conseguir concluir a compra.


Um processo de crédito habitação pode envolver pré-aprovação, procura do imóvel, negociação, assinatura do CPCV, avaliação bancária, contratação de seguros, aprovação final do financiamento e escritura.
Tudo isto demora algum tempo.


Por isso, um jovem que queira beneficiar da medida não deverá começar o processo em dezembro. Terá de procurar casa e tomar decisões antes.


É precisamente por essa razão que os próximos meses podem representar uma janela de oportunidade interessante para alguns proprietários.


Pelo acompanhamento que faço dos processos de compra e venda na PMR Imobiliária, e pela minha experiência diária de intermediação de crédito, o conselho que deixo aos proprietários é simples: não esperem pelo último trimestre para perceber se este contexto pode ser relevante para a venda do vosso imóvel.


Se está a pensar vender nos próximos meses, este é um bom momento para perceber quanto vale realmente a sua casa, qual é a procura existente e se o perfil do imóvel poderá beneficiar desta janela de procura criada pela Garantia do Estado.


Pode concluir que deve avançar agora ou pode concluir que deve esperar.


Mas essa decisão deve ser tomada com informação e estratégia, não com base em suposições.


Porque vender uma casa no momento certo não significa tentar adivinhar o mercado. Significa compreender quem está a comprar, que condições tem para o fazer e como posicionar o imóvel perante essa procura.