Organizar a casa é organizar a vida. Nesta conversa, Paula Moreira, diretora da PMR Imobiliária, recebe Susete Lourenço, fundadora da Home Optimizer e uma das primeiras organizadoras profissionais em Portugal. Falam sobre o impacto da organização em momentos de mudança, como a compra ou venda de casa, mas também em situações mais delicadas, como o luto ou o divórcio. Com uma abordagem prática e humana, Susete partilha dicas úteis e casos reais que mostram como a organização profissional pode transformar o dia a dia de uma família — e até evitar a venda de uma casa.
Se está a preparar uma mudança ou simplesmente quer viver com mais leveza e funcionalidade, esta conversa é para si.
Paula Moreira (PM): Olá Susete. É sempre um prazer receber-te aqui na PMR Imobiliária, tanto para estas conversas como pela ajuda preciosa que tens dado a muitos dos nossos clientes. É sobre isso que hoje vamos conversar. Temos tido alguns projetos em conjunto e temos identificado dois grandes tipos de clientes com quem tu costumas trabalhar: quem está a preparar a casa para venda e quem já comprou e quer organizar a nova casa. São clientes diferentes, com necessidades diferentes. Como é que descreves este trabalho em parceria com a PMR Imobiliária?
Susete Lourenço (SL): Em primeiro lugar, queria agradecer esta conversa e a partilha que vamos fazer. Tenho a certeza de que pode ajudar muitas pessoas a considerar a organização, especialmente quando estão numa fase de vender ou comprar casa. Acho que ainda é algo a que a maior parte das pessoas não dá o devido valor. Mas este trabalho em parceria com a PMR tem um valor enorme para os clientes, sejam famílias grandes ou pequenas, solteiros ou casados.
PM: Já tivemos um pouco de tudo...
SL: Um pouco de tudo. E eu acho que a organização devia ser mais divulgada. Hoje em dia, quando as pessoas fazem um investimento tão grande numa casa, muitas vezes o maior investimento das suas vidas, faz toda a diferença. Voltando à tua pergunta: sim, são clientes diferentes. E o nosso trabalho, na minha perspetiva, é essencial, porque facilita não só o vosso trabalho enquanto imobiliária, mas também o processo de mudança. A mudança é sempre um momento stressante, delicado. Lembro-me da última vez que mudei de casa ainda não trabalhava nesta área e jurei que seria a última. Hoje, seria tudo mais fácil, claro. Mas na altura senti, como cliente, todas as dores associadas a esse processo. É um momento de grande investimento financeiro, mas também de enorme desgaste emocional. Muitas vezes há discussões em casa, entre o casal, porque ninguém está preparado para tomar tantas decisões relevantes em tão pouco tempo. O nosso trabalho conjunto ajuda a tornar esse momento mais simples para todos.
PM: Falávamos há pouco desses diferentes clientes e, se calhar, há três ou quatro anos, a maioria das vezes que te chamávamos era quando tínhamos uma casa prestes a entrar no mercado. Hoje, já fazemos muito trabalho de preparação com Home Staging, mas ainda mostramos pouco o que acontece antes da encenação. E muitas vezes essa é a parte mais exigente do trabalho da Susete e da sua equipa, não só fisicamente, mas também na preparação e triagem. Os clientes acham sempre que tudo lhes faz falta, não é?
SL: Nem todas as pessoas conseguem projetar-se num espaço cheio de objetos. Vamos ser diretas: tralha. É muito comum vermos casas cheias de coisas, é algo cultural, educacional. Mas isso complica o vosso trabalho, porque dificulta mostrar a um potencial comprador o verdadeiro potencial daquele imóvel. Está tudo cheio de memórias, de objetos que fazem sentido para quem lá vive, mas que não dizem nada a quem ali poderá vir a viver.
PM: E mais do que dificultar o nosso trabalho, pode mesmo prejudicar a venda.
SL: Sem dúvida. E vai prejudicar também, numa segunda fase, o próprio cliente que está a mudar-se. Vai gastar mais tempo e dinheiro com a empresa de mudanças, vai levar tudo para a nova casa, e depois depara-se com um problema: os objetos não cabem, não fazem sentido naquele novo espaço. Muitas vezes as pessoas não conseguem projetar-se na nova casa e perceber se ela tem as dimensões certas para o que querem levar.
PM: E às vezes há coisas que não precisamos mesmo de levar...
SL: É fundamental destralhar. Retirar o que já não faz sentido. Pode ter sido útil no passado, mas agora não faz parte da nova fase de vida. Dou-te um exemplo muito comum: casais com filhos já crescidos, na universidade, e ainda têm em casa os talheres e as roupinhas de bebé. A casa não é um museu. Claro que há objetos emocionais que devemos guardar. E às vezes os clientes até me perguntam: “Mas tenho mesmo de deitar fora isto?” E eu respondo que não. Não é para deitar fora tudo, é para selecionar. O desapego é difícil, mexe com emoções, memórias e, se houver tempo, o processo torna-se mais fácil. Mas se a venda for rápida e for preciso esvaziar tudo de um dia para o outro, torna-se muito mais difícil.
PM: O nosso objetivo com estas conversas é também ajudar as pessoas no seu dia a dia, mesmo que não estejam, neste momento, num processo de compra ou venda. Muitas vezes achamos que ter uma casa arrumada e limpa é suficiente. Mas será que é mesmo?
SL: Não. Porque arrumar é diferente de organizar.
PM: Lembro-me que foi a primeira coisa que aprendi contigo, quando ouvi falar pela primeira vez em organização profissional.
SL: Arrumar é algo que todos fazemos no dia a dia, claro. Mas organizar é diferente. Arrumar é colocar as coisas dentro dos armários, por exemplo, sem criar um sistema. Organizar é criar um sistema funcional, adaptado ao dia a dia daquela pessoa ou daquela família. E esse sistema deve funcionar durante algum tempo, mesmo com as mudanças da vida. Porque a vida muda. Não é só mudar de casa. Dentro da mesma casa, a vida muda. E o sistema tem de acompanhar essa mudança.
PM: Tive o prazer de estar presente no último encontro da Associação APEOP. Foi muito interessante ouvir-te na tua palestra sobre as "Casas do Futuro" e sobre a forma como vivemos a casa, como a queremos usar e como isso vai mudando ao longo do tempo. As pessoas vivem numa casa durante vários anos e, muitas vezes, a solução não passa por vender para comprar outra. Nós, enquanto imobiliária, claro que ajudamos a vender e a comprar. Mas, acima de tudo, o nosso trabalho é ajudar os clientes a encontrar soluções. E foi algo que tu me alertaste há uns anos. Eu dizia: “Não posso entrar numa casa para organizar e, no fim, o cliente desistir da venda...” Mas tu deste-me logo um exemplo.
SL: Sim, aconteceu comigo logo no início da minha atividade. Ainda não trabalhava convosco, mas fui recomendada por amigos. Eram uma família com quatro filhos, viviam numa casa grande na zona da Praça de Espanha, que adoravam, era uma casa cheia de história familiar. Mas achavam que já não tinham espaço. E a solução parecia ser vender a casa. Com muita pena, claro, porque gostavam mesmo de lá viver. Quando fui até lá, fizemos aquilo que há pouco falávamos: destralhar, reorganizar, olhar com atenção para o que tinham guardado ao longo dos anos. Encontrámos, por exemplo, quatro martelos, eletrodomésticos avariados, objetos que foram ficando sem utilidade. E depois de tudo revisto, reorganizado, de repente havia espaço. E não precisaram de vender. Continuaram felizes naquela casa.
PM: E tu alertaste-me logo: “Paula, isto pode acontecer.” Mas, se não comprarem ou venderem naquela altura, mais tarde acabam por voltar.
SL: Exatamente. Porque, mais do que o lado comercial, o mais importante para mim e, felizmente, também para a PMR Imobiliária, é o cliente. Criar condições para que o cliente tenha uma vida tranquila e feliz. Claro que todos precisamos do lado comercial, mas o foco é sempre a pessoa. É nela que se centra tudo. No meu caso, é como esta garrafa de água aqui à minha frente: é o cliente que está sempre presente.
PM: E hoje falámos muito de vendedores e de proprietários, mas as histórias felizes mais recentes que vivemos juntas foram com compradores. Clientes que compraram casa connosco e que, depois, precisaram de organizar as suas casas. E não precisa de haver um grande motivo para se chamar um organizador profissional.
SL: Exatamente. Não tem de haver nenhum “horror” ou uma situação caótica. Esta é uma profissão que já existe há mais de 30 anos nos Estados Unidos. E lá é completamente normal. Assim como contratamos um personal trainer porque sozinhos não fazemos exercício, ou chamamos um canalizador porque temos um problema no autoclismo, ou um pintor porque queremos mudar uma divisão, também contratamos um organizador profissional. Nós estamos em casa dos clientes como profissionais. Não é porque o cliente não sabe ou não quer fazer, às vezes é só porque não tem tempo. A vida hoje é muito corrida. Há filhos, empregos exigentes... E a mudança, como já dissemos, é um processo exigente. A nossa intervenção é para ajudar. Em dois ou três dias conseguimos deixar uma casa funcional, com tudo no sítio. E isso faz toda a diferença.
PM: Então vou desafiar-te, sim, pro bono, a deixares aqui duas ou três dicas para os nossos clientes que estão agora numa fase de mudança. O que é que consideras fundamental para que esse processo seja mais tranquilo e menos stressante?
SL: A primeira dica é esta: considerar contratar um organizador profissional. As pessoas têm muitas vezes a ideia de que é um luxo, que é algo caro. Mas pode não ser assim tão dispendioso. Vale a pena falar com alguém, comigo ou com outra profissional da área, que trabalhe especificamente com mudanças, porque nem todas o fazem. O investimento pode ser menor do que imaginam e traz uma enorme tranquilidade. Já me aconteceu muitas vezes os clientes dizerem: “É um bocadinho acima do que eu pensava gastar.” E no fim dizerem: “Uau, isto valeu cada cêntimo. Eu jamais teria conseguido fazer isto sozinha.” Muitos dizem: “Ainda tenho caixotes por arrumar da última mudança...” E agora, com a nossa ajuda, conseguem finalmente fechar essa etapa. E como eu costumo dizer, agora já podem fazer a festa de inauguração.
PM: Porque a casa está pronta.
SL: Exatamente. A casa está organizada, está funcional, e agora sim, é tempo de celebrar. Essa é a primeira dica. A segunda dica é pensar na mudança com a maior antecedência possível. Começar cedo. Pensar nos espaços, nas medidas, fazer o destralhe. Mesmo que pareça que não há tempo, vai ter vantagens. Não levar tralha, não levar coisas desnecessárias, evita custos extra: menos caixas, menos volume na empresa de mudanças. Isso significa menos dinheiro gasto e menos stress.
PM: E às vezes, quando vos chamamos só depois de tudo já estar na casa nova, o processo fica mais difícil e mais caro.
SL: Exatamente. Para nós, como profissionais, é indiferente. Fazemos o trabalho com o mesmo empenho. Mas para o cliente, financeiramente, é sempre mais pesado. Vai pagar duas vezes por algo que podia ter resolvido numa só fase. E, acima de tudo, o processo torna-se mais desgastante. Quando há planeamento, conseguimos conversar antes, perceber o que é preciso, que funcionalidades são importantes para aquela família, e organizar tudo em função disso. As pessoas às vezes pensam que vamos pôr tudo ao nosso gosto, mas não é assim. É sempre em função do cliente. Claro que há casos em que nos pedem: “Suzete, decida você. Veja o que é melhor.” E aí usamos a nossa experiência.
PM: E há detalhes que as pessoas nem pensam, como por exemplo a instalação da internet. Vocês ajudam nisso também?
SL: Ajudamos, sim. Se for preciso agendar a instalação da internet, fazemos. Se for preciso uma limpeza, temos parceiros com quem trabalhamos. Se for preciso tratar de alguma burocracia, também conseguimos ajudar. Quando há organização e planeamento, a mudança não tem de ser um drama. Pode ser um prazer, um recomeço. Como tu disseste há pouco, uma mudança de vida. E, depois, é tempo de fazer festa.
PM: Susete, antes de terminarmos, gostava de trazer aqui um tema que sei que te é muito querido e no qual foste pioneira em Portugal: a organização pós-luto. Pode não estar diretamente relacionada com um processo de venda ou compra, mas é um momento que muitas famílias vivem e que mexe com a forma como se vive a casa. Podes explicar-nos melhor o que é esta organização pós-luto e que tipos de luto existem?
SL: Sim, claro. A maior parte das pessoas associa o luto apenas à morte. Mas, na verdade, há muitos tipos de luto. Um divórcio, por exemplo, é um luto. É uma perda. Pode significar sair de uma casa, ou ficar nela sozinho. E esse processo, muitas vezes, implica reorganizar o espaço, tanto fisicamente como emocionalmente. Há casos em que o casal se separa e é preciso vender a casa, ou um deles fica e o outro sai, levando alguns objetos. E o que fica pode parecer um presente envenenado: o móvel desapareceu, a parede ficou marcada, e há ali uma ausência que custa encarar.
PM: E essa reorganização para quem fica é fundamental. O espaço muda.
SL: Exatamente. De repente, a pessoa está na mesma casa, mas tudo mudou. E isso pesa. Depois temos os lutos associados à morte de um familiar: pais, avós, tios... Já tivemos casos assim também na PMR. Famílias que ficam com uma casa fechada durante anos. Primeiro não há tempo. Depois não há vontade. Depois há desconforto em entrar num espaço cheio de memórias e de histórias de vida. E o processo vai-se adiando. A nossa intervenção, nesses casos, é emocional. Claro que é prática também, mas tem uma forte carga emocional.
PM: Lembro-me de um caso concreto em que, mesmo com toda a disponibilidade da nossa parte e da consultora que acompanhava os clientes, o processo só avançou verdadeiramente quando entraste tu. Porque, até ali, era preciso sempre a intervenção direta dos herdeiros, e isso criava um bloqueio emocional.
SL: Sim, e nesse caso conseguimos ajudar muito. Havia já algumas decisões tomadas, mas faltava objetividade. E é isso que tentamos sempre trazer: um olhar objetivo, metas claras, datas definidas, para evitar que os processos se arrastem. Cada vez que se entra numa casa assim, vêm ao de cima emoções muito fortes. Às vezes, ter um terceiro elemento, alguém de fora, torna tudo mais fácil. Ajudamos também a valorizar certas peças que, no meio de tanto, podiam passar despercebidas.
PM: Falámos disso nesse caso. Havia um livro antigo sobre costura, que tinha pertencido a uma das mulheres da família. Um objeto especial, com história, que quase ia embora sem se dar por ele.
SL: Exatamente. Era um livro muito antigo, da altura em que as senhoras aprendiam a costurar. Quando olhei para ele, percebi que tinha valor sentimental e cultural. Falei com os clientes e eles disseram: “Não tínhamos pensado nisso.” E decidiram ficar com o livro. Ou seja, no meio de tantas decisões difíceis, conseguimos resgatar algo com significado. Às vezes, as pessoas estão tão envolvidas na dor que não conseguem ver com clareza. E é aí que nós fazemos a diferença.
PM: E há objetos que até podem ser vendidos. A organização também ajuda nesse processo de selecionar, doar, vender...
SL: Sim, claro. Trabalhamos também com a vertente da sustentabilidade. Há coisas que podem ser reaproveitadas por outras pessoas, há objetos que podem ser vendidos e gerar algum retorno financeiro. E isso, em certos momentos da vida, faz falta. Já tivemos clientes que, passado algum tempo, ainda receberam dinheiro por peças que tinham vendido após o processo de organização.
PM: E às vezes é só mesmo isso, perceber que há outra utilidade, outro destino possível para algo que já não serve na vida daquela pessoa.
SL: Exatamente. E tudo isso faz parte do nosso trabalho: dar sentido, ajudar a fechar ciclos, e criar espaço físico e emocional para o que vem a seguir. Por isso, sim, vale mesmo a pena trabalhar com um organizador profissional.
PM: Muito obrigada, Suzete. Acredito mesmo que esta conversa vai ajudar muitas famílias a organizar o seu dia a dia, a preparar a casa para onde vão viver ou a viver melhor na casa onde já estão. E, claro, a preparar com mais tranquilidade a casa que vão colocar à venda. Porque é importante que as famílias possam continuar a viver nesses espaços enquanto estão no processo de venda mas sem que isso prejudique o resultado final.
SL: Exatamente. Tranquilamente e felizes.
PM: Muito obrigada.
SL: Obrigada, Paula. Até breve.



